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Artigo de Daniel Corsi

Sob a sombra do planalto

A Escola de Administração Fazendária em Brasília de Pedro Paulo de Melo Saraiva
Brasília DF, 1973-1974
PPMS Arquitetos Associados [Pedro Paulo de Melo Saraiva]


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Essa Brasília sobre seu planalto gigante lembra um pouco a Acrópole sobre seu rochedo...”
André Malraux (1)

Em uma época em que, para nos surpreendermos, vemos imperar o culto a intenções fugazes, experiências capazes de colocar-nos diante de realizações que falam sobre a concretude de sua existência revelam-se extraordinariamente potentes. Assim é Brasília e assim foi numa estada recente nessa cidade que, além de me permitir revisitar suas obras fundamentais, fez-me também chegar a lugares além dos extremos de seus eixos. O planalto que define a nossa capital é vasto e a cruz nele traçada aponta para seus diversos horizontes. Foi num deles que pude vivenciar a Escola de Administração Fazendária (2).

A afirmação do ministro francês André Malraux, próxima ao ano de inauguração da nova capital, talvez tivesse como principal objetivo nos lembrar da força emanante das obras grandiosas, afirmadoras de si próprias e plenamente condizentes com a "epopeia da construção" (3) de um novo monumento nacional erguido em meio ao nada. No entanto, acredito ser igualmente imprescindível extrair de sua leitura não apenas a sublimidade dessas obras arquitetônicas, mas também das paisagens que as definiram: um rochedo ou um planalto são, por eles mesmos, ambos monumentais. É a partir deste entendimento que inicio este relato a respeito de outra obra que, sobretudo, conta-nos sobre uma relação entre arquitetura e território. Uma extraordinária construção e um elogio à paisagem.

Estamos habituados a uma ideia de monumentalidade segundo a qual certa presença se define a partir de sua singularidade frente aquilo que a cerca. Esta concepção nos remete, por exemplo, às noções de grandiosidade ou verticalidade, capazes de elevar nossos olhares aos céus. Mas não é ela que diferencia a ESAF. A força que emana desta construção advém precisamente do contrário. Sua arquitetura é monumental em virtude da sua relação categórica com o plano fundamental do lugar sobre o qual se estabelece, por sua escala inapreensível e por sua sensível apropriação da paisagem. É ela que também nos faz olhar para a imensidão do planalto e, assim, apurar as nossas consciências sobre sua magnitude. Uma grandiosidade que não somente proclama a arquitetura, mas também aquilo que lhe é muito maior: o horizonte.

Concebida há exatos 40 anos por Pedro Paulo de Melo Saraiva – arquiteto formado na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Mackenzie em 1955 e de esplêndida produção arquitetônica – o processo de projeto e construção da ESAF decorreu durante um curto período de quatorze meses, entre os anos de 1973 e 1974, conforme relatou-me o arquiteto numa conversa posterior.

A instituição foi criada com o objetivo de aprofundar e aperfeiçoar o conhecimento teórico e prático dos funcionários do Ministério da Fazenda, destinando-se a oferecer cursos e atividades relacionadas às atividades de Administração Fazendária. Conscientes da necessidade de que suas futuras instalações configurassem um espaço de trabalho colaborativo entre alunos, professores e funcionários, buscou-se uma arquitetura que, por si só, falasse sobre seus objetivos didáticos e acolhesse o extenso programa de estrutura organizacional.

Sua localização se dá numa área de sutil declive no setor de Mansões Urbanas Dom Bosco, a sudeste do Eixo Monumental e, se anteriormente falamos sobre como a grandiosidade de certas construções se dá segundo sua precisa inserção arquitetônica na paisagem, a primeira ação projetual da ESAF o exemplifica de modo fundamental definindo um vasto plano principal destinado a acomodar sua construção. A expectativa de que neste promontório artificial se erigisse uma arquitetura proeminente é, contudo, radicalmente suplantada por uma estrutura que se funde ao território e, quase, desaparece. Não encontramos nela uma base ou qualquer outro elemento insinuador de um edifício: a ESAF parece surgir da terra através da imensa escala e leveza de sua estrutura – e desvendá-la é uma experiência fascinante.

Certamente estamos diante de uma das maiores realizações das ‘grandes coberturas’, investigação tão presente entre os arquitetos modernos paulistas. Ao nos aproximarmos de sua estrutura com dimensões de 300 metros de comprimento por 65 metros de largura, a ESAF se revela imensurável. A extensão ao longo da qual contemplamos a sucessão de seus expressivos pórticos nos revela sua escala arquitetônica: uma construção monumental paralela ao solo que se eleva a 6 metros de seu plano fundamental. Aqui vemos reafirmada a mesma poesia estrutural que tanto nos faz encantar a arquitetura de Oscar Niemeyer em Brasília: a leveza do encontro entre arquitetura e paisagem através dos pontos de apoio de suas estruturas. O desenho de Pedro Paulo de Melo Saraiva foi capaz de criar uma arquitetura de ‘arcos horizontais’, cuja beleza singular demonstra uma habilidade geométrica e uma busca pela beleza e precisão de seus traços. São estes nove arcos de concreto armado, em seu estado bruto e com 30 metros de vão que, sombreando o interior da construção numa misteriosa atmosfera, incitam-nos a adentrar e descobrir a pequena urbe ali debaixo protegida.

Clarice Lispector, ao falar de Brasília, retrata-nos uma cidade repleta de "construções com espaço calculado para as nuvens" (4). Narrando a soberania de uma suposta dimensão exterior que nos coloca em intensa relação com a amplitude do vazio, indaga que “a alma aqui não faz sombra no chão” (5). Parecendo responder a esta condição, a ESAF nos convida a cruzar seus pórticos e nos ampararmos em seu interior descobrindo que, nela, uma certa dimensão interna é que prevalece. Através da luz que invade seu espaço interior, somos acolhidos por suas sombras que tanto nos confortam. Desenhadas pela sutil inclinação de seus pórticos, das aberturas zenitais e das inúmeras pérgulas, um novo céu é inaugurado e emoldurado pela arquitetura. No entanto, sob sua cobertura concreta, somos acolhidos não apenas como desbravadores do sol cálido do cerrado, mas também como indivíduos que, diante da dimensão do mundo, é-nos dada a oportunidade de descansarmos daquilo que significa sermos tão diminutos. Como uma grande oca horizontal, sua arquitetura nos oferece a escala do humano.

É nesta paisagem introspectiva que se descortina sua pequena comunidade, organizada por longas promenades architecturales que vencem, em ambas a fachadas, seus trezentos metros de extensão. A presença desta ordem moderna é significativa para o método de ocupação de sua sombra, mas a ela poderíamos também somar um entendimento clássico de composição dos espaços. Como num templo da Acrópole que define seus deambulatórios entre colunas e muros, as calçadas resguardadas da ESAF, com dez metros de largura, são pautadas pelo ritmo de seus pórticos, que alternam seu contato com o solo natural e o grande espelho d’água na plataforma de checada, e blocos edificados internos. Com seus jardins invadindo o passeio, tornam-se galerias de transição entre exterior e interior que, por mais imersos que estejamos em seu espaço, sempre nos permite a apreensão de sua planície fundamental.

Permeado por praças, pátios e jardins, o conjunto de edifícios sob a cobertura da ESAF é definido por três setores principais: o Educativo com Coordenação, Centro de Pesquisa, Laboratórios e Salas de Aula; o Público com Biblioteca, Auditório, Prefeitura, Salão Nobre, Informática, Restaurante; e o de Alojamentos com dependências para a permanência prolongadas de alunos na escola. Além da evidente importância dos blocos edificados que abrigam seus programas, mais uma vez encontramos aqui sua precisão arquitetônica que configura, com uma mesma sensibilidade, o desenho de seus vazios e caracteriza cada um deles segundo o convívio que deveriam proporcionar. No setor Educativo, constituído por três blocos, são encontradas pequenas praças com bancos, descansos e jardins. No setor de Alojamentos, os vazios entre seus quatro blocos parecem querer trazer uma atmosfera bucólica para o interior de suas habitações, criando extensos jardins cruzados por sendeiros a serem desvendados. O setor Público é delimitado pelas vias de automóveis deslocadas a uma cota inferior de modo a não interferir nas calçadas que se tornam pontes nestes cruzamentos. Seu espaço é dominado pela forma cônica do Auditório rodeada por pérgulas que a fazem irromper insólita na composição. Pela luz que transpassa suas pérgulas e banha seus vazios e pela chuva que é sutilmente recebida por suas gárgulas e captadores, encontramo-nos abaixo do artifício singular que significa sua cobertura de apenas 65 cm de espessura: um lugar que nunca nos aparta de certa presença natural.

Foi assim que, após essa tarde de visita, tomei meu caminho de retorno. Na estrada que me permitia contemplar de maneira extraordinária o esplendor dos monumentos brancos de nossa capital à outra margem do Lago Paranoá recordei-me da mensagem de Malraux: “Salve, capital intrépida, que vem lembrar ao mundo que os monumentos estão a serviço do espírito!” (6). Perguntando-me, mais uma vez, sobre o significado de tudo aquilo que via ao longe, Brasília me reafirmava que este augúrio era real. Sentia meu espírito acolhido por cada uma de suas construções, e a Escola de Administração Fazendária tornava-se mais uma delas. Sob sua sombra, foi como se o planalto todo pairasse numa leveza sem fim e me lembrasse de como pode ser simples a arquitetura.

Sobre o autor
Daniel Corsi é arquiteto (FAU Mackenzie, 2003) e professor desta mesma instituição desde 2010. Mestre pela FAU-USP em 2012. Sócio-Fundador do escritório Corsi Hirano Arquitetos.
Artigo publicado originalmente no site Vitruvius – Ano 13 – set/2013